Percorrer por autor "Campos de Miranda, Michele"
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- Urutau-cinza verde-mata: corpo travessia, memória ancestral e a dança brux(t)a como ferramentas de criação poética e da resistênciaPublication . Campos de Miranda, Michele; De Lima, CecíliaUrutau-Cinza Verde-Mata é uma pesquisa coreográfica que dança entre a forma e a palavra, atravessa territórios e se expande para além de sua origem institucional. Partindo de questões individuais e globais que movem um corpo imigrante na criação de um solo autobiográfico e autoficcional, refletindo as experiências de quem precisa ou escolhe desnortear- se: perder o rumo, deixar o Norte — neste caso, a Amazônia brasileira — sair de dentro para fora em um percurso espiralar de constante perder-se e encontrar-se; a performer mapeia sua mitologia pessoal por meio de narrativas, imagens e memórias da infância de seu território, buscando manter vivo seu cordão invisível ancestral. Em solo seu corpo habita o entre-lugares, caminha em direção futura com a cabeça voltada para o passado, que se transforma à medida que é revisitado. Evoca a imagem do pássaro mítico Sankofa, que avança para frente com firmeza, mas tem sua cabeça voltada para trás (san=retornar; ko=ir; fa=buscar). Retornar ao passado para adquirir sabedoria de si e dos caminhos, tudo que se perdeu pode ser reescrito; e ainda a imagem de Goofus, o pássaro que constrói o ninho ao contrário e voa de costas ao encontro da casa, reafirmando o eterno retorno às origens como gesto de sabedoria e cura. A pesquisa e a escrita assumem um desenho espiralar, no entrelaçamento não hierárquico entre memória, teoria, sonhos e ficção, entendidos como matérias do processo criador. Nesse voo, o ser-pássaro amazônico Urutau (fantasma, em Tupi), ave protetora da floresta, camuflada no seco cinza da mata morta, transita entre duplos poéticos e ritualiza códigos dançados entre o chão que arde e o céu que insiste em não desabar, apesar de toda destruição e ameaça constante. A dança retoma a floresta como fêmea e última sobrevivente, oscilando entre luto e festa, orgânico e sintético, luz e sombra, traçando caminhos do caos ao cosmos. O que se afirma é um rito de esperança: um corpo em estado brux(t)o, político e mitológico, a dramaturgia do si mesmo por meio da performance e do improviso no encontro com o público, sustentada por uma cosmovisão própria das epistemologias amazônicas que atravessam este corpo-pesquisa-criação-vida.
